Santa Casa da Misericórdia de Montalvão - Lar Joaquim Maria da Costa
Luís Gonçalves Gomes
14 janeiro 2016
Centro de Apoio Social de Salavessa – Centro de Convívio
O Centro de Apoio Social de Salavessa (CASS), foi inaugurado em 22 dezembro 2012, em cuja cerimónia participaram os eleitos do Município de Nisa, à época, bem como o Bispo da Diocese de Portalegre e Castelo Branco.
O Centro de Apoio Social de Salavessa é uma IPSS-Instituição Particular de Solidariedade Social, que presta apoio à população envelhecida da localidade, sendo por isso fundamental como contributo para a melhoria da respetiva qualidade de vida, numa fase crítica da sua vivência.
Mediante o recurso a financiamento previamente candidatado ao Programa de Desenvolvimento Rural-PRODER, foram realizadas obras de remodelação no edifício sede visando melhorar as condições de habitabilidade proporcionadas aos utentes e respeitando as exigências atuais.
Aquele investimento atingiu o montante de cerca de sessenta e dois mil euros, correspondendo a uma comparticipação pública de 75%, havendo a registar igualmente a comparticipação com vinte mil euros por parte da Câmara Municipal de Nisa. Foi igualmente assumido por esta autarquia a elaboração do projeto e o acompanhamento técnico da obra.
Por parte da Junta de Freguesia de Montalvão, onde a localidade de Salavessa se integra, houve também um apoio financeiro da ordem dos dois mil euros.
As condições criadas permitiram aumentar a capacidade do Centro de Apoio Social para os 18 utentes (9 ao nível do piso 0 e 9 no piso 1).
Luís Gonçalves Gomes
14 janeiro 2016
Fotos: Manuel Tremoceiro
14 janeiro 2016


Origens de Montalvão (1)
É sabido que a origem da primitiva localidade que veio a designar-se como Montalvão (v. "Topónimo", neste "sítio") é muito remota, havendo vestígios de terem andado pelas suas imediações e nela terem vivido povos pré - históricos. Desde muito cedo também, atendendo à importância atribuída outrora a este território, sob o ponto de vista estratégico e militar, como praça de vigilância e controlo fronteiriço, tendo em conta a época da Reconquista Cristã, foi palco de duras e persistentes contendas para expansão territorial, não só nesta época, o que não seria de estranhar, mas também, pelo menos, seis séculos mais tarde, como se verá em "A Campanha de 1704" e "A Guerra das Laranjas", igualmente neste "sítio".
Montalvão, a par de outras terras que integravam uma vasta área - que ia desde o que hoje conhecemos como norte alentejano, até uma maior parcela do interior da atual Beira-Baixa e mesmo até mais a norte -, passaram a pertencer à Ordem Templária, como paga e reconhecimento pela participação destes monges-guerreiros naquelas pelejas, mas também para consolidar e organizar os novos territórios ocupados, já que a população autóctone era muito diminuta e impreparada.
Esta política de doações às Ordens Militares (provindas do estrangeiro, por vezes a caminho das cruzadas para defesa da Terra Santa, e que por aqui permaneceram), estava naturalmente associada à ajuda que as mesmas prestaram na luta pela expulsão dos muçulmanos do território ibérico, como já mencionado. No território portucalense tal política terá sido iniciada ainda em pleno Condado Portucalense, por D. Teresa de Leão (ou Tareja), mãe de D. Afonso Henriques, mediante as doações concedidas à Ordem dos Templários, política essa prosseguida por seu filho e depois por seu neto, D. Sancho I.
Decorrentemente, Montalvão tornou-se Comenda da Ordem dos Templários, o que significa que passou a ser “gerida” por um Comendador (sem o significado que esta designação atualmente tem, bem entendido), ao qual estava cometida a autoridade civil, judicial e económica, de entre outras, e após a extinção daquela Ordem, passou a ser Comenda da Ordem de Cristo, fundada por D. Dinis.
Tal como aconteceu com muitas outras localidades, Montalvão foi dotada de um primeiro foral, o “foral velho” (de que não se conhecem originais, nem cópias), assim designado como forma de o distinguir do atribuído muitos anos mais tarde por D. Manuel I, o “foral manuelino” ou “foral novo”, o qual, aliás, faz menção à Ordem Militar que outorgou o primitivo foral, embora sem mencionar, infelizmente, a respetiva data e o responsável pessoal pela outorga.
À semelhança do sucedido com as fortificações (v. "Livro das Fortalezas"), D. Manuel I mandou que se fizesse um levantamento sobre as cartas de foral eventualmente existentes, partindo daí para determinar a respetiva reforma e a consequente atribuição de novos forais, como sucedeu com Montalvão em 1512. Neste Foral, tal como nos outros, aliás, ficaram regulamentadas as condições de utilização, de tributação dos territórios abrangidos e de passagem pelos mesmos (portagem), de que Montalvão, aliás, era direta beneficiária, por força da necessidade de atravessamento do rio por meio das barcas devidamente licenciadas para nele operarem comercialmente (daí o topónimo de ruas das barcas - de acesso ao rio -, tal como existe ainda).
Montalvão foi sede de Município, o qual funcionou até 28 de dezembro de 1836 - data da última reunião da "Veriação" (e não 1834, como erroneamente se vê pontualmente referido) -, conforme maior desenvolvimento dado neste "sítio" , em "Antigo Município".
Não sendo aqui comportável maior aprofundamento, nem o mesmo, aliás, se justificar, face à existência de publicações bem documentadas sobre Montalvão e que, com o maior gosto, divulgamos no separador correspondente, "Publicações", impõe-se que recomendemos a respetiva leitura aos mais atraídos por estas aliciantes temáticas, pelo seu interesse intrínseco e para maior e melhor conhecimento sobre Montalvão e a Salavessa - que formam a nossa Freguesia.
Para terminar este breve apontamento, respigamos do livro "Montalvão, Ecos duma História Milenar - Introdução" (2), os seguintes trechos que sintetizam lapidarmente, o espírito que preside à criação deste "sitio":
"Montalvão é uma terra rica, do ponto de vista histórico, pois desde as gravuras rupestres dos finais do Paleolítico, que se encontram no Tejo, até aos nossos dias, passando pelos monumentos megalíticos, pelos vestígios da antiga comenda da Ordem de Cristo e pelo seu castelo, possui um enorme e importante património arqueológico e histórico que merece ser conhecido e conservado"...
..." conhecer a história da sua terra é uma forma de aqueles que nela vivem e aqueles que, por razões várias a abandonaram, reencontrarem o orgulho de nela ter nascido e, motivados por esse orgulho, descobrirem novas formas de, pelo menos, retardar a sua morte.
Conhecendo o significado dos monumentos, os montalvanenses deixarão de os olhar como meros pedregulhos e poderão ainda preservar os que restam de pé. Preservados, estes, poderão, então, com iniciativas várias e recorrendo a diferentes entidades, dá-los a conhecer a forasteiros, mas também aos muitos filhos da terra, que estando longe talvez sintam, por isso, necessidade de mais frequentes visitas à terra onde nasceram"(2)... ou, acrescentamos nós, onde têm as suas origens ou, ainda, adotaram como sua.
Luís Gonçalves Gomes
19 janeiro 2016
Bibliografia:
(1) GOMES, Luís Gonçalves, “O Antigo Município de Montalvão”; Ed. Junta de Freguesia de Montalvão; 7set 2014; pp. 3 e 4; excerto com ligeiras adaptações.
(2) ROSA, Jorge, "Montalvão, Ecos duma História Milenar"; Ed. Colibri / Câmara Municipal de Nisa, 2001; pp. 9 e 10.

Pratos tradicionais:
- Açorda de poejo, simples (para acompanhar sardinhas assadas ou peixe frito, por ex.) ou de bacalhau.
- Alhada de Cação;
- Escabeche de peixe do rio
- Maranhos de tomatada;
- Migas variadas: de tortulhos, de batata, de pão;
- Miolada (ovos com mioleira simples ou com rins);
- Pratos especiais da época de Páscoa: sopa de sarapatel, sopas de afogado, carne de molho (borrego - tipo ensopado), sopa de cachola;
- Sopa de peixe do rio (Sever; Tejo): barbo, boga;
- Sopas: de batata, de tomate, de couve e feijão, com ou sem massa;
- Tomatada (galinha; carne de borrego; bacalhau);
Doces tradicionais:
- Arroz doce (branco);
- Papas de milho, adoçadas com mel.
- Fatias paridas (fatias douradas)
- Rosca (bolo oferecido pelos madrinhas aos afilhados, na Páscoa, com um pão)
- Sardão (bolo pascal oferecida pelos padrinhos aos afilhados, conjuntamente com um pão)
- Bolo folhado (pelos Santos)
- "Goivite" (miolo do pão embebido em leite, feito em bola e frito
- "Moletes" (pão frito ou pome de farinha frita)
Comissões participadas pela JFM
A Junta de Freguesia de Montalvão, através do seu Presidente e do Secretário do Executivo, respetivamente, Manuel Tremoceiro e José da Silva Possidónio, participou e participa ainda na "Comissão para Angariação de Fundos para o Restauro da Igreja Matriz de Montalvão", conjuntamente com a Fábrica da Igreja Paroquial de Montalvão – Pes. Joaquim Valente, Jacinto Barginsky (inicialmente) e Cecília Graça –, Santa Casa da Misericórdia de Montalvão, inicialmente representada pelo Provedor Rui Coutinho, e a título individual António Churro e Luís G. Gomes.
A Comissão estabeleceu os seguintes objetivos, por ordem de prioridades, face, por um lado, à premência de conservação e, por outro, à dimensão e custo dos trabalhos a realizar:
-Substituição e restauro dos cabeçalhos dos sinos, automatização da sinalização das horas e toques de atos litúrgicos (objetivo rapidamente satisfeito graças à pronta e generosa contribuição de parte significativa da população);
-Pintura do edifício, com recuperação do antigo frontão (tinta fornecida por beneméritos, no âmbito da campanha; solicitada cedência de mão de obra e meios de pintura à CMNisa; frontão já em curso de excecução);
-Eletrificação interior - substituição ou melhoramento da rede elétrica (solicitada à CMNisa atualização do projeto elétrico que realizou em 2003, a fim de se obterem orçamentos e subsequentes recursos financeiros, ao abrigo do mecenato ou outros;
-Restauro de altares e interior da igreja (obtido o estudo / proposta especializada, muito detalhada para o efeito, orçando no valor de 105.000 €. Este trabalho exige outros recursos financeiros, eventualmente, mediante candidatura a programas europeus específicos, e outros a explorar).
A Campanha foi iniciada em simultâneo e no âmbito da realização do 1º Encontro de Coros Ibéricos, em 27 junho de 2015, nele tendo atuado os Grupos Corais da Assembleia da República e Re:Canto, de Lisboa. Por decorrência deste Encontro foi constituído o Grupo Coral EmCanto de Montalvão, como melhor explicado no separador correspondente neste “sítio”.
Graças à adesão de inúmeras pessoas, conterrâneas e outras (a quem foram distribuídos certificados comprovando a respetiva comparticipação) foi possível angariar no curto espaço de dois meses a verba necessária para a concretização dos dois primeiros objetivos, os considerados prioritários. Também em relação à pintura foi oferecida a tinta minimamente necessária, aguardando-se a satisfação do pedido dirigido pela Comissão à Câmara Municipal de Nisa, para a cedência da mão-de-obra e meios necessários à pintura, logo que as condições climatéricas o permitam.
Os trabalhos de restauro dos sinos e instalação de relógio automático ficaram concluídos em 14 de setembro 2015, tendo-se aproveitado para instalar projetores de iluminação noturna das janelas das torres, bem como redes de proteção anti - aves.
Em 17 outubro 2015 foi realizada na Casa do Povo a cerimónia de entrega dos certificados às pessoas que contribuíram monetariamente ou materialmente para a campanha, brindando-se as mesmas com um espetáculo de música coral, com a atuação do Grupo de Cante Alentejano “Vozes de Almodôvar” (primeiro grupo do género a atuar no concelho) e do EmCanto de Montalvão, que atuou assim pela segunda vez perante o público de Montalvão (sendo a sua estreia durante a festas de Nossa Senhora dos Remédios).
Luís Gonçalves Gomes
19 janeiro 2016
Arte Rupestre (1)
Montalvão, para além de estar integrada nos “Itinerários Templários de Portugal”, como referido no separador que lhes dedicamos neste “sítio” , faz igualmente parte da área ou corredor da “Arte Rupestre do Vale do Tejo”, a qual engloba várias estações arqueológicas situadas entre dois afluentes do rio Tejo, o Ocreza e o Sever.
São múltiplas as manifestações de arte rupestre na nossa região, sendo estas evidências essencialmente caraterísticas do período pós-paleolítico.
Foram identificados milhares de desenhos nas onze estações referenciadas, tendo muitas delas, infelizmente, ficado submersas pela inevitável subida das águas, resultante da construção da barragem do Fratel, finalizada em 1973. É corrente considerar-se, aliás, que tudo o que ficou submerso, seria mais importante e numeroso do que o existente em Foz Côa, o que, aliás, pouco ou nada importa agora relevar, por inconsequente.
Ainda assim, é possível visualizar entre Salavessa e Montalvão cinco estações, algumas das quais são das mais importantes da arte rupestre do Vale do Tejo, designadamente: 1050 junto à foz do ribeiro de Ficalho; 2140, no Cachão do Algarve; cerca de 20, Lomba da Barca; 1300, no Alagadouro; 3800, no Cachão de S. Simão. Tratando-se na sua grande maioria da figuração de formas abstratas e círculos, eventualmente representando o sol – o astro-rei -, na Lomba da Barca situa-se a que poderá ser a mais evoluída e importante de todas elas: uma figura humana, transportando à cabeça um animal.
Relativamente à arte funerária, que os povos pré-históricos praticaram como culto dos seus mortos, também há evidências na região de Montalvão e Salavessa. No âmbito de um estudo realizado em 1980 por arqueólogos, com relação aos concelhos de Vila Velha de Ródão e Nisa, foram localizadas 13 antas na região de Montalvão e 20 na da Salavessa. Infelizmente, porém, o seu estado de conservação é deplorável.
Posteriormente, em 1988, o trabalho de arqueologia desenvolvido pela equipa do arqueólogo Jorge Oliveira, permitiu identificar mais 14 antas entre Montalvão e a Barragem de Cedilho.
A existência de uma tão grande quantidade e concentração de monumentos megalíticos, neste caso em xisto (noutras zonas prevalece o granito), por essa a matéria-prima predominante, permite inferir que a região onde foram implantados seria densamente habitada e daí poder-se admitir igualmente que sobre o morro onde muito mais tarde foi implantado o castelo de Montalvão, possa ter existido um povoado pré-histórico, fortificado como se impunha.
Poderá ter sido esta a origem mais remota de Montalvão?
Poderão igualmente em tais vestígios encontrar-se as origens mais remotas da Salavessa?
Luís Gonçalves Gomes
19 janeiro 2016
Bibliografia:
(1) ROSA, Jorge, “Montalvão - Ecos duma História Milenar”; Ed. Colibri; pgs. 13 a 25 e
BENTO, Luís Mário Correia, "Salavessa - Um contributo para a sua história"; Edição de autor; pgs. 13 a 23.
Comércio local:
Restaurante e café:
Cafés:
- Belo (Rua do Arneiro; Tlf: 245 743 010)
Mini-supermercado:
- Lagar (v. neste "sítio": Economia Local - Produção de Azeite)
Produção de queijo:
Montalvão e sua relação com as antigas unidades de medida (1)
1. Introdução

3.2 A Canada
Quem não se lembra das quadras populares cantadas nos dias festivos em que se dizia:
“Venha vinho, venha vinho
Venha mais meia canada
O dinheiro paga tudo
Não se fica a dever nada”.
Correspondendo a meia canada a 0,70 litros, no caso de vinho

Meia Canada - Medida Padrão para volume de líquidos de D. Sebastião(1575)
(1) GRAÇA, José Luís“Os Pesos e as Medidas em Portugal - Montalvão e osTraços do seu Passado”Excerto (sic)
Inquisição – os condenados de Montalvão
Segundo o Prof. Eduardo Lourenço, a Inquisição …”é o mais presente, obsessivo e enigmático episódio da nossa vida coletiva”…(1)
Trata-se de facto de um tema fascinante, como estudo do comportamento dos Homens e dos instintos mais primários que os pode levar a cometer as maiores atrocidades, neste caso, praticadas a pretexto de rivalidades religiosas e sob o manto da Santa Inquisição e dos poderes régios e pontifícios. O fanatismo doutrinário foi a chispa que tudo incendiou, mas, mais prosaicamente, a ganância desmedida de alguns, mesmo quando já não precisavam de mais, pelo muito que já tinham, fê-los aproveitarem-se oportunisticamente desse clima, não olhando a meios para atingir os fins ambicionados.
Mas também é, concomitantemente, um assunto aterrador, que nos coloca perante a perplexidade do quão prepotente e brutal pode ser a atitude de uns quantos para com o seu semelhante, só porque o acaso os dotou de poderes intocáveis e impunes, a par da ausência de valores pessoais, permitindo-lhes que os usassem sem pudor nem escrúpulos de qualquer espécie, em benefício próprio, sem qualquer relação com motivações religiosas ou falaciosos pretextos do mesmo tipo, de que se serviram, aliás, para encapotar os seus instintos mais bárbaros e primários.
Não cabe aqui, obviamente, desenvolver a vastíssima e complexa matéria que envolve a designada Santa Inquisição e o Tribunal do Santo Ofício ou, também Tribunal da Fé, assim designado em Portugal, mas apenas evidenciar que, apesar da recôndita localização geográfica de Montalvão, nem por isso o braço tentacular dos inquisidores nela deixou de se fazer sentir, tal como em muitas outras localidades, onde a comunidade judaica se foi instalando e progredindo.
Antes, porém, de nos referirmos concretamente aos “condenados de Montalvão”, assim os designámos, justifica-se que deixemos aqui alguns breves apontamentos, para melhor enquadramento e compreensão desta problemática:
- A Inquisição Pontifícia nasceu no âmbito de um adverso contexto socio - económico, político e eclesiástico e adquiriu aquela designação por decorrência de um procedimento criado pelos Papas Lúcio III (1181-1185) e Inocêncio III (1198-1216) e pelo Concílio IV de Latrão (1215), destinado a combater a heresia dos cátaros, no sul de França e no norte da Itália...
A decisão mais determinante, porém, foi a tomada no convénio de Verona, em 1184, pelo Papa Lúcio III e pelo Imperador Frederico I da Germânia (o Barba Roxa; Barba Ruiva ou Barbarossa). De acordo com o Imperador, o Papa promulgou o documento mais severo, até então, contra a heresia, pois não só determinava o castigo dos hereges, como a sua busca e a perseguição organizada, confiadas estas aos Bispos de cada diocese. Trata-se da primeira legislação de ação conjunta dos poderes - político e religioso - contra a heresia, dela tendo ficado consolidada a “Inquisição episcopal” e supostamente criado o embrião do “Tribunal do Santo Ofício”. (2)
Por sua vez, a Inquisição em Espanha e mais generalizadamente na Península Ibérica, teve na sua génese o difícil relacionamento entre cristãos e judeus. Pelo já referido Concílio de Latrão, ficou declarado que …“ a convivência entre cristãos e judeus constituía um grave perigo para os primeiros”…. Mas o que estava verdadeiramente subjacente ao ódio e conflitos entre os dois grupos sociais, não era tanto a questão religiosa, mas verdadeiros conflitos sociais, derivados da alteração da conjuntura económica vigente.
A situação de conflitualidade em Espanha foi-se agravando ao longo dos anos, verificando-se o primeiro ato de violência generalizada em Navarra, em 1328, espalhando-se por outras localidades. Em Toledo, o primeiro ataque e consequente matança deu-se em 1355, mas a maior chacina da comunidade judaico-hispanica ocorreu em 1391, alastrando por toda a Espanha. O pânico gerado no seio daquela comunidade levou muitos dos seus membros a converterem-se ao cristianismo, dando origem aos chamados “cristãos novos” (ou também judeus conversos ou, ainda, convertidos) (3) , o mesmo tendo acontecido em Portugal, em particular no reinado de D. Manuel I, como se explicará adiante.
Nem assim as rivalidades e conflitos abrandaram. Ao contrário, passaram a envolver também os judeus convertidos, não por razões religiosas, repetimos, mas por interesses e disputas económicas de vária índole, uma vez que, como é sabido, os judeus sempre conseguiram prosperar com base na sua providencial arte para os negócios, o que naturalmente despertava ciúmes mesquinhos e insaciáveis apetites por parte dos poderosos e até da própria população.
Como resposta a tal conflitualidade, os Rei Católicos (Isabel I, de Castela e Fernando II, de Aragão) fundaram a Inquisição (1480) e pode dizer-se que foi no seu reinado e em Toledo, por ação do famigerado Frei Tomás de Torquemada (confessor de Isabel I), que a mesma atingiu o apogeu, com assanhadas perseguições, condenações e mortes.
Em Portugal, foi no reinado de D. Manuel I (1495-1521) que ocorreram as primeiras perseguições, não só a judeus, como a muçulmanos, naturalmente com destaque para os primeiros, em particular entre 1496 e 1498 (neste último, ano, curiosamente e em flagrante contraste, coincidindo com o espírito misericordioso e consequente criação da Misericórdia de Lisboa, pela Rainha viúva de D. Joaão II, D. Leonor).
No final do século XV chegam a Portugal milhares de novos judeus expulsos de Castela (muitos deles entrados pela Portagem-Marvão, em cuja torre acastelada está afixada uma placa evocativa) que são acolhidos a troco de uma taxa, instalando-se muitos deles muito próximo de Montalvão, em Castelo de Vide, por exemplo, ou mais a norte, nomeadamente em Belmonte, onde ainda existem importantes reminiscências dessa comunidade judaica.
Em 1496, no entanto, é publicado um édito real de D. Manuel I com os mesmos objetivos dos invocados na vizinha Espanha. Aquele monarca, sujeitando-se às pressões dos Reis Católicos e aos seus interesses pessoais e do reino português reconheça-se, expulsa os não cristãos (judeus e muçulmanos) ou obriga-os à conversão, dando origem a milhares de novos cristãos, os já referidos “cristãos novos” ou “marranos” (em hebraico B'nei anussim, "filhos dos forçados"), ou seja, os descendentes de judeus convertidos à força (anusim ou anussim) ao cristianismo na Península Ibérica, mas que, apesar disso, mantinham os antigos costumes e o culto judaico, embora dissimulados e na mais absoluta clandestinidade.
Efetivamente, sendo D. Manuel I extremamente religioso, não será de estranhar que seguisse a política adotada pelos Reis Católicos, sendo essa também uma forma de lhes cair nas graças, dando igualmente cumprimento a uma das cláusulas do seu contrato de casamento com a herdeira de Espanha, Isabel de Aragão. O interesse sempre presente, como se vê.
Tal como em Espanha, os judeus portugueses ocupavam nessa época lugares de importância económica, social e até política e, por consequência, começaram a ser alvo da inveja e da ira popular.
A conversão forçada fez surgir milhares de cristãos-novos que se tornaram o alvo preferencial das sevícias dos populares, estimulados também pelo aproveitamento do fanatismo religioso de alguns, como, por exemplo, dos frades dominicanos, sediados na Igreja de S. Domingos. Foi justamente por responsabilidade de dois deles que em frente daquela igreja se consumou o Massacre de Lisboa de 1506 ou Matança da Páscoa, a qual durou três horrendos dias, daí resultando a chacina de cerca de 2 000 pessoas. No mesmo local - largo de S. Domingos em Lisboa -, existe um memorial evocativo desse vergonhoso episódio, bem como uma placa com uma mensagem do então Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, para manter bem viva a nossa memória coletiva sobre esses dias horrorosos, durante os quais muitos se tornaram os algozes de amigos e até de familiares.
Tal matança foi talvez uma das consequências da política de Manuel I, o qual, em 26 agosto 1515, chegou a requerer ao Papa Leão X autorização para estabelecer a Inquisição em Portugal, mas tal só veio a concretizar-se vinte e um anos mais tarde, em 23 maio de 1536, reinava então D. João III, filho de D. Manuel.
Com promulgação pelo Papa Paulo III, através da bula “Cum ad nil magis”, foi criado o Santo Ofício em Portugal, que perdurou até 31 março de1821, data em que as Cortes, por decreto publicado em 5 de abril, aprovaram a respetiva extinção, por unanimidade.
A Inquisição portuguesa estendeu-se às possessões ultramarinas existentes na época, nomeadamente à India (Goa) e Brasil.
Feito este enquadramento, chegamos agora ao essencial deste apontamento, que é o referente aos "condenados de Montalvão", pela Inquisição de Évora.
Sem ter atingido as proporções e a gravidade do ocorrido noutras localidades, como referido antes, ainda assim os Inquisidores ditaram em Montalvão as suas sentenças, sendo delas vítimas várias pessoas, cuja identificação obtivemos através de pesquisa efetuada nos arquivos da Torre do Tombo, como se vê através no quadro apenso a este apontamento. Tal não significa, porém, que outros mais não tivessem sido condenados, pois deparámos com o registo de vários nomes de pessoas, com nascimento e morada em Nisa, Castelo de Vide (o que não surpreende, dada a numerosa comunidade judaica que ali se instalou), Marvão, etc., podendo haver cruzamentos que não são facilmente descortinados. Mas mesmo que tenham sido tão sómente os que indicamos, são demasiados para uma pequena localidade, afastada das grandes urbes, como era e é Montalvão. (v. quadro ao lado)
Para finalizar, registem-se alguns dados estatísticos globais estimados, sobre as vítimas da Inquisição em Portugal e Espanha - levantamentos feitos pelos historiadores Juan Antonio Llorente (referentes a Espanha entre 1481 e 1808) e Cecil Roth (estimativa sobre Portugal). Não há dados sobre a Inquisição medieval.

Luís Gonçalves Gomes
21 janeiro 2016
Bibliografia:
(1) MARCOCCI, Giuseppe e PAIVA, José Pedro, "Introdução, História da Inquisição Portuguesa 1536-1821; Ed. A Esfera dos Livros.
(2) tradução livre e adaptação, pelo autor do texto supra, de um trecho de “Breve Historia de la Inquisición en España - El Tribunal de la Santa Inquisición de Toledo, de Jesús Perezagua Delgado; Ed. Covarrubias-Colección Cronicón; cap. I Los Orígenes de la Inquisición Medieval.
(3) Idem.
Manuel Tremoceiro
21 janeiro 2016
Os elementos do Brasão
Completando a informação acerca da heráldica da Freguesia, nomeadamente sobre o Brasão, importa esclarecer qual o significado que se pretendeu atribuir a cada um dos elementos que o compõem.
Em termos gerais, os principais elementos que formam um brasão heráldico são: a coroa mural, o listel e o escudo.
Sobre a "coroa mural" já esclarecemos a razão de a mesma, no caso específico de Montalvão, possuir quatro torreões em vez de três e de ter a cor prateada, como explicado em “Heráldica-Processo de Criação”, assim como o seu significado mais geral.
O listel, representado por uma fita estilizada na cor prata, é um elemento comumente associado aos brasões heráldicos, não tendo significado especial, exceto quanto à inscrição nele contida, identificando o local ou organismo a que pertence, com maior ou menor detalhe. No nosso caso, continua a ostentar apenas a designação de Montalvão, uma vez que já muito recentemente se propôs, com a devida fundamentação, à Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses a substituição por “Notável Vila de Montalvão”, o que não foi aprovado.
O escudo é o elemento central de qualquer brasão, seja de que natureza for, permitindo o seu conteúdo caraterizar simbolicamente aquilo a que respeita, seja ele de tipo familiar, clubístico, autárquico ou o que seja.
No caso de Montalvão os elementos que compõem o seu Brasão podem agrupar-se em três ordens de categorias principais: histórico-culturais; orográficas; socio - económicas.
O primeiro grupo está tipificado pela figuração do castelo, cabendo a escolha da cor vermelha para a chamada iluminação das janelas e porta àquela Comissão, como é comum na heráldica que apresente este tipo de elemento.
A localização daquela figura sobre uma outra representando um monte, alude justamente à orografia de Montalvão, situada sobre uma não muito acentuada elevação, donde, segundo alguns autores, poderia ter derivado o seu topónimo (v. separador respetivo neste “sítio”).
Sob a figura do monte, através de duas listas onduladas (burelas), preenchidas a prata e a azul, estão representados os dois rios, respetivamente o Tejo e o seu afluente Sever (especialmente este), com os quais Montalvão desenvolveu fortes ligações lúdicas (dos autóctones, e conviviais, inclusive, com a população da vizinha Cedillo), económicas (a pesca, a moagem e o próprio contrabando nos dois sentidos, tão importante, apesar de proibido, após o período de grandes carências resultantes da Guerra Civil de Espanha e da 2ª Guerra Mundial) e sociais (pela dinâmica social que tudo aquilo gerou).
Nos flancos do escudo surgem dois elementos vegetais, figurando igualmente dois importantes pólos da economia local e da flora predominante: do lado direito temos um ramo de sobreiro, com seu fruto – a bolota ou lande, como se preferir – e do lado esquerdo, um ramo de oliveira, também com o fruto que lhe é próprio. Associados aos mesmos deduzimos as atividades económicas derivadas, sejam de interesse meramente doméstico ou comerciais: a pecuária e produtos derivados; a azeitona, o azeite, que aliás ainda hoje é produzido no lagar local (v. "Economia Local-Produção de Azeite", neste "sítio"), e a cortiça. Estes dois ramos encontram-se entrelaçados precisamente para significarem o forte contributo económico que aquilo que representam teve e, em menor escala, tem ainda para Montalvão.
Por sua vez, o fundo azul celeste, significa a pureza dos ares e a qualidade ambiental que carateriza Montalvão, por todo o meio que a cerca e que convida ao seu disfrute. Foi justamente este azul que a Comissão de Heráldica aproveitou para definir as cores da nossa bandeira.
Segundo o Parecer emitido pela Comissão de Heráldica da Associação os Arqueólogos Portugueses, em 15 de abril de 1997, nos termos da Lei n.º 51/91, de 7 de agosto (v. cópia em "Processo"), a descrição oficial da "Ordenação heráldica do brasão, bandeira e selo da Freguesia de Montalvão, Município de Nisa" é a seguinte (sic):
"Brasão: escudo de azul, castelo de prata aberto e iluminado de vermelho, entre um ramo de oliveira de ouro, frutado de negro, à dextra e um ramo de sobreiro de ouro, frutado de verde, à sinistra, sobre um monte de rochedos de prata, realçado de negro, movente dos flancos e da ponta, carregado de uma burela ondeada de azul; em chefe, burela prateada ondeada de prata. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: "Montalvão".
"Bandeira: esquartelada de branco e azul. Cordão e borlas de prata e azul. Haste e lança de ouro."
"Selo: nos termos da Lei, com a legenda: "Junta de Freguesia de Montalvão - Nisa"
Nota: v. "Processo de criação"
Luís Gonçalves Gomes
25 janeiro 2016



