ESPINGARDARIA A. MONTEZ
UMA LOJA COM (REAL) HISTÓRIA
É certo e sabido, está nos livros, que a Espingardaria Central A. Montez, sita na Praça D. João da Câmara, paredes meias com o Rossio, marcou várias gerações ao longo de quase cento e vinte anos, por ali passaram artistas de vários quadrantes, escritores, políticos e caçadores – quais deles mentem mais? – reis e rainhas, umas de facto, outras nem por isso.
Comecemos pela realeza onde sobressai o Rei D. Carlos– exímio caçador para além de excelente pintor e de refinada cultura –, ele que era um dos melhores clientes desta casa, acabou por ser assassinado, a 1 de Fevereiro de 1908, com uma arma aqui vendida: carabina Winchester, calibre .351, modelo 1907 e com o N.º de série 2137.
Demitido o governo de João Franco, são libertados todos os presos políticos, nomeadamente os republicanos, que juntamente com maçons e grupos progressistas, planearam o golpe. A compra da arma a A. Montez, na altura Gonçalo Heitor Freire (republicano e maçon) foi efectivada pelo 1.º Visconde da Ribeira Brava, Francisco Correia de Herédia de sua graça, que entregou a “canhota” a Manuel Buíça, atirador de primeira água, que ao primeiro disparo, de joelho no chão, acertou no pescoço do monarca partindo-lhe a coluna; deu um segundo disparo que lhe atingiu o coração, para não mais se mexer. Ao lado do pai estava o príncipe Luís Filipe que teve a mesma sorte pela mão do outro atirador, Alfredo Costa.Ele e Buíça seriam abatidos nas imediações do Terreiro do Paço, pelo tenente de seu nome Figueiredo.
Todo o trama fora planeado a meia dúzia de metros da Espingardaria, no Café Gelo, que ainda hoje lá tem um mural testemunhando ali a habitual presença destes republicanos, onde se destaca Aquilino Ribeiro; o outro local de reunião era também ali ao lado, na Rua 1-º de Dezembro, no Restaurante Leão D’Ouro, felizmente ainda existente.
Mas há vários momentos pictóricos vividos nesta Loja com História, assim cognominada pela Câmara Municipal de Lisboa, à semelhança de algumas outras na cidade das Sete Colinas.
Um “nuestro” Hermano, olhando espantado para as fotos antigas ali expostas, disse: - “mira,que tienda más vieja”. Aí fiquei logo a olhá-lo de lado, qualtienda, qual carapuça, isto é uma loja de prestígio e “tiene más que cienaños”! Para dar mais ênfase à coisa contei-lhe, sem pormenores, a história atrás descrita. Olhou-me desconfiado, e lá foi direito à porta de saída, parecendo-me ouvir qualquer coisa entre dentes. Aí ainda lhe disse, “hombrey fuiyo que é vendido la escopeta al visconde”. Ainda hoje ele estará a fazer contas “por los dedos”!
Outro meliante, este vindo de Bencatel, que só dava à costa quando vinha ver o Benfica nas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus, vejam lá há quanto tempo foi,apareceu mesmo quando estava a fechar a porta para almoço. Deixei-o entrar e começa a conversa assim: “Eh amigo há anos que não ando por estas bandas, diga lá, ali em frente ainda há aquele “caféi” que lá na cave tinha umas “maganas” que aquilo era de “arrebimba o malho”?Ai é, “e ali na Rua do Coliseu também havia” …
“Olhe, ó amigo, vossemecê não quer armas,néi?Já vi, vem é às putas. Então vá ali para a Rua João das Regras, a seguir à Praça da Figueira, que é só escolher, enquanto eu vou dar ao bigode.”
E um marmanjo em pleno Rossio que ali mesmo arriou as calças, fazendo de mim padrinho do “preso”, comigo ali bem perto!...
Hoje em dia, quando tanto se fala da igualdade de género, está cada vez está mais generalizado ver casalinhos do mesmo sexo a passear de mãos dadas, frente à loja, muitos deles homens de meia-idade e mais além – espero bem que isto não se pegue! – alguns dos quais tudo fazendo para dar no olho, quer dizer, nas vistas.Vai lá vai…
Antes da pandemia entrou porta dentro um “raparigo” brasileiro, qual papoila – atenção que não tem nada a ver com as papoilas saltitantes - colorida, toda doidona e vaporosa, incrédulo a olhar para armas expostas,pergunta:“para que servem tantas armas?”“Olhe meu caro, são para caçar coelhos, perdizes, lebres, caça menor; e estas, são carabinas para abater javalis, “Viados” e tal, caça grossa!”“Ai “credooo”!tanta violência, adeusinho gatão, mas olha rico vou com essa da não sei quê grrrooosssa no pensamento!”“Tchau!”Qual gatão, qual quê, Leão, isso sim, ainda que sem…juba.
Também vindos do Brasil, um jovem casal entra e pergunta: “Siô, onde apanhamos o treim para Sintra?“É aí em frente, nesse edifício de linda traça”. “Não se esqueça de ir à Piriquita”,quiz eu ajudar. Toda a gente conhece, menos o casal que ficou encavacado. Ele ainda respondeu “hoje dá não”, ela saiu logo porta fora. Bem, só depois soube que piriquita é o mesmo nome daquela que me berrou ao ouvido lá na “Badalena”.
Um dos maiores vultos da cultura portuguesa, Fernando Pessoa, cabe aqui com todo o mérito. Sua namorada Ofélia morava mesmo por cima da loja, contudo, nem mesmo a Igreja de S. Domingos, do outro lado, os abençoou para uma união que nunca seria duradoira já que a sua morte aconteceu quando apenas tinha quarenta e sete anos.
Se calhar, por outro lado, ela nunca sabia qual era o dia de quem: Fernando Pessoa/Alberto Caeiro/Álvaro de Campos/Ricardo Reis(!). Também se constava, aliás, que este grande escritor era pouco atiradiço…, mais dado à poesia, à astrologia e a tantas outras coisas.
José Morujo Júlio
21 agosto 2020







