QUANDO O PRÉMIO DA CORRIDA ERA UM…CHOURIÇO
As festas em honra de Nossa Senhora dos Remédios estão cada vez mais a perder a sua genuinidade. Já não se vê os “quintos” de agora e de antanho, cantando “as saias de Montalvão”, acompanhados por acordeonistas, percorrendo as ruas de manjerico atrás da orelha, como quando iam às sortes, e parando a cada porta donde sempre caía um copo e um bolinho, nem que fosse de azeite, ou ovos crus para fazer peitaça, não fossem ficar “livres” à tropa.
Os espectáculos são mais do mesmo: “Quem é o pai da criança, eu sei lá, eu sei lá”. Salvam-se as touradas à vara larga, onde sobressai uma pega ou um arremedo de faena, mesmo com a cerveja na mão! Cumpre a bel-prazer a ida à ermida, altaneira nos campos das Naves, onde os eucaliptos ganham alguma razão de existirem.
Os jovens festeiros, como diz o fado, “da mocidade perdida” nada aprenderam com os de “cabelo branco é saudade”, por isso seria bom oficializarem a coisa e entregar as rédeas á Junta de Freguesia, fazendo jus á criação do Centro de Marcha e Corrida de Montalvão, o qual poderia encarregar-se da organização de provas, como as abaixo descritas e outras na especialidade do atletismo, por altura daquelas festas e não só, pela atratividade de inúmeros participantes, que sempre lhes estão associadas.
Tempos houve que, após a alvorada, as ruas ficavam prenhes de gentio aguardando a passagem dos corredores de vários escalões etários. Chamou-me a organização, chefiada pelo Ti Tomás da taberna, para promover estes salutares eventos a que acedi de bom grado ou não fosse a bem da Terra que nos viu nascer.
Lembro-me perfeitamente de que na corrida dos mais jovens estava o filho do malogrado casal João Dias, o “Chotas” – grande Leão – e achei por bem guardar um minuto de silêncio antes da partida e foi comovente assistir ao respeito mantido.
Com o Tio Tomás, grande amigo do meu Pai, abalámos até Nisa a uma ourivesaria no Largo, junto aos táxis, comprar taças e outras lembranças para os primeiros dez classificados porque o último chegado, também ele “filho de gente casada”, tinha direito a prémio, um bem curado chouriço… para gáudio da assistência.
A outra corrida, internacional, uma espécie de meia-maratona, teve início em “Casalinhe” com chegada a Montalvão. Muitos esqueceram-se que a seguir à barragem havia, e há, uma subida que nunca mais acaba, eu bem lhes fui dizendo que se poupassem para a parte final… Lá foram chegando sem que a assistência abrandasse os aplausos, com as velhas piadas pelo meio – “vens todo esbanzalhade”, por sorte o atleta era espanhol e não percebeu nada daquela lambança.
José Morujo Júlio
13 agosto 2020







