BERRO DE RAPOSA/FOI TIRO DE PARTIDA
PARA O MEU PRIMEIRO SPRINT
Foi ali para os lados do Ribeiro de Fevêlo, junto ao Pero Galego, na horta do meu avô Manuel Morujo, a “Badalena”, que senti, pela primeira vez, ter queda para o atletismo; tinha para aí uma dezena de anos.
Desde gaiato as minhas férias eram passadas com o meu avô nas hortas. Ali, ou na Charneca, onde a aguardente de medronho, feita por ele e provada por caçadores e montesinhos, era rainha.
Numa noite cálida de Verão, depois de um dia exaustivo procurando agúdias e armando os costelins, encostei-me ao tanque debaixo da latada, enquanto o avô, lá mais a cima preparava a fofa cama camisas de massarocas de milho. De repente, entre sonhos e cantares das cigarras, e o chocalhar de um rebanho lá para os lados do Pai Lázaro, acordei sarapantado com o estridente grito de raposa cujo cheiro – “malavada” – me entrou pelas narinas, parecendo chamar o companheiro anunciando que estava preparada para o receber.
Alvoroçado pelo alarmante berro, qual tiro de partida, arranquei por ali fora, em sprint contínuo fazendo curvas a direito até à choça onde o avô, que se apercebera do alarido, me sussurrou: “Eh Zé, tal é a pressa, deves estar cheio de sono!”. Sem piar, encostado à porta do “chalet” lá me fui recompondo ciente de que se tivesse blocos de partida teria batido o record das redondezas. Mais tarde tive a prova nas pontas finais dos 1.500 metros, prova rainha aquém e além-fronteiras.
Acachochado em cama genuína com a albarda a fazer de cabeceira, voltei aos sonhos de menino sem mais gritos de permeio até a manhã romper, trazendo consigo perfumes campestres difíceis de igualar. Até que arremelgo os olhos e vejo uma valente lebre pendurada por um arame desde o tecto onde uma doninha, eterna inquilina, olhava de soslaio para a caçada. Tinha sido o avô Manel Morujo que logo cedo foi à cata do menu na cova de cima onde tinha um valente meloal.
Corro até á latada onde já estavam dois canastrões com vajas, tomates coração de boi, figos estiveiros, pepinos, pimentos, eu sei lá, prontos para eu levar até à vila. Escarranchado em cima do burro, lá ia eu, passando pelo chafariz da amarela, fonte da feia, pontão da figueira doida, praça de toiros e Rua de Ferro. Empurrei a meia porta e lá estava a avó Possidónia espantada de me ver sozinho com tamanha carga. – E o burro não conta”. “Não hás-de sair às pedras da rua”! rematava a mui querida Avó que de pronto me chamava para um apetecido pequeno almoço, não obstante estar com a barriga cheia de figos estiveiros.
Voltei à horta pois já haveria melros, piscos e chêdes, se a raposa não se foi a eles durante a noite. De facto, as raposas são um perigo. Daquelas que berram não gosto nada, mas as outras que mordem pela calada, até as afago!...
José Morujo Júlio
13 Agosto 2020
QUANDO O PRÉMIO DA CORRIDA ERA UM…CHOURIÇO
As festas em honra de Nossa Senhora dos Remédios estão cada vez mais a perder a sua genuinidade. Já não se vê os “quintos” de agora e de antanho, cantando “as saias de Montalvão”, acompanhados por acordeonistas, percorrendo as ruas de manjerico atrás da orelha, como quando iam às sortes, e parando a cada porta donde sempre caía um copo e um bolinho, nem que fosse de azeite, ou ovos crus para fazer peitaça, não fossem ficar “livres” à tropa.
Os espectáculos são mais do mesmo: “Quem é o pai da criança, eu sei lá, eu sei lá”. Salvam-se as touradas à vara larga, onde sobressai uma pega ou um arremedo de faena, mesmo com a cerveja na mão! Cumpre a bel-prazer a ida à ermida, altaneira nos campos das Naves, onde os eucaliptos ganham alguma razão de existirem.
Os jovens festeiros, como diz o fado, “da mocidade perdida” nada aprenderam com os de “cabelo branco é saudade”, por isso seria bom oficializarem a coisa e entregar as rédeas á Junta de Freguesia, fazendo jus á criação do Centro de Marcha e Corrida de Montalvão, o qual poderia encarregar-se da organização de provas, como as abaixo descritas e outras na especialidade do atletismo, por altura daquelas festas e não só, pela atratividade de inúmeros participantes, que sempre lhes estão associadas.
Tempos houve que, após a alvorada, as ruas ficavam prenhes de gentio aguardando a passagem dos corredores de vários escalões etários. Chamou-me a organização, chefiada pelo Ti Tomás da taberna, para promover estes salutares eventos a que acedi de bom grado ou não fosse a bem da Terra que nos viu nascer.
Lembro-me perfeitamente de que na corrida dos mais jovens estava o filho do malogrado casal João Dias, o “Chotas” – grande Leão – e achei por bem guardar um minuto de silêncio antes da partida e foi comovente assistir ao respeito mantido.
Com o Tio Tomás, grande amigo do meu Pai, abalámos até Nisa a uma ourivesaria no Largo, junto aos táxis, comprar taças e outras lembranças para os primeiros dez classificados porque o último chegado, também ele “filho de gente casada”, tinha direito a prémio, um bem curado chouriço… para gáudio da assistência.
A outra corrida, internacional, uma espécie de meia-maratona, teve início em “Casalinhe” com chegada a Montalvão. Muitos esqueceram-se que a seguir à barragem havia, e há, uma subida que nunca mais acaba, eu bem lhes fui dizendo que se poupassem para a parte final… Lá foram chegando sem que a assistência abrandasse os aplausos, com as velhas piadas pelo meio – “vens todo esbanzalhade”, por sorte o atleta era espanhol e não percebeu nada daquela lambança.
José Morujo Júlio
13 agosto 2020
POR MONTES SAGRADOS NUNCA DANTES PERCORRIDOS
Morreria de bom grado pelos meus filhos e netos e principalmente pela esposa que não me canso de “aturar”. Logo a seguir, toca-me sobremaneira a minha terra com o casario de branco vestido e não obstante o semi-abandono dos campos, abdicando de dourados trigais que deram lugar a bravios estevais, mesmo assim, basta-me o aroma agridoce das charas para não me cair no esquecimento.
A nossa terra está salpicada de pequenas ermidas que os templários quiseram perpetuar chamando a si os deuses para abraçar as terras que lhes dariam o pão.
Há oito dias, revisitei o local onde outrora teria sido erguida a capela dedicada a Santa Maria Madalena, que os antigos montalvanenses alcunharam de “Badalena”, junto à horta do meu avô Manuel Morujo. Vi blocos de granito, outrora naturalmente da capelinha e agora a sustentar o portal de um antigo curral, e um pedaço de telhão – irá para o nosso prometido museu –coisa pouca, comparada com o que poderia ser um testemunho imorredoiro.
Embalado pelo achado vou dali com a minha mulher à procura de outros tesouros. Com a velha Toyota lá fomos nós caminho fora em direcção ao Pero Galego; já com sobe e desce pronunciados vejo nos montes fronteiros outros caminhos. Para chegar até lá, fui dar ao ribeiro sem me aperceber de que o caminho findava ali e que a carrinha que não sabe quantos são 4X4 ficou especada perante o curso de água sem pinga.
A D. Fernanda bem me dizia: - Olha que o caminho não continua”, mas como acreditar nas mulheres “É crer no diabo”, como diz a canção, não liguei e o resultado aí está: avancei mato fora, qual “bulldózer”, até que a japonesa assenta o cavername no chão como que a dizer:”daqui não saio daqui ninguém me tira”, enquanto alguém me chingava o juízo, com razão está bom de ver.
Felizmente com pouco carrego, apenas alguma água, lá bem no fundo do barranco, olhámos, com receio de arranjar algum torcicolo, para a empinada montanha, e só de olhar já dava ânsias; e ala que se faz tarde, arrancámos em direcção à estrada da Salavessa, só que o raio do cerro não se estendia antes se empinava, tudo isto pela esturreira do sol. A muito custo chegámos à estrada, junto à Charneca do Senhor José Godinho, e continuámos enquanto carros e carrinhas de várias marcas passavam naturalmente comentando: “valente casal sem medo de fazer caminhadas a esta hora”! Cansados, doridos, cheios de sede, mas com vergonha de pedir boleia, lá fomos orgulhosamente cientes do desforço despendido. Felizmente que o Santo André se lembrou de colocar um chafariz no nosso caminho e ali nos dissecámos fazendo jus a qualquer bejeca gelada.
Horas depois estava a contactar o Tiago, filho do Alexandre e afilhado/sobrinho do Manel do Monte Queimado e este jovem pega num tractorzorro, com potência para arrancar a Torre de Piza pela raiz, e vai até ao fundo do cerrado pegando na caranguejola em “ardemala” até lá acima enquanto eu sentado e melhor almoçado tirava fotos para mais tarde me lembrar da asneira que fiz.
Na manhã seguinte toca a visitar mais vestígios sagrados: Santo António, S. Silvestre, Santa Margarida, ainda com nichos e altar e com uma azinheira ao meio nascida – o que para os lados de Fátima seria “milagre”; e na foz da Ribeira de S. João, o Santo Isidro, santuários que dizem os antigos eram visitados por um velho padre que de burro por ali pregava a palavra Sagrada.
ESPINGARDARIA A. MONTEZ
UMA LOJA COM (REAL) HISTÓRIA
É certo e sabido, está nos livros, que a Espingardaria Central A. Montez, sita na Praça D. João da Câmara, paredes meias com o Rossio, marcou várias gerações ao longo de quase cento e vinte anos, por ali passaram artistas de vários quadrantes, escritores, políticos e caçadores – quais deles mentem mais? – reis e rainhas, umas de facto, outras nem por isso.
Comecemos pela realeza onde sobressai o Rei D. Carlos– exímio caçador para além de excelente pintor e de refinada cultura –, ele que era um dos melhores clientes desta casa, acabou por ser assassinado, a 1 de Fevereiro de 1908, com uma arma aqui vendida: carabina Winchester, calibre .351, modelo 1907 e com o N.º de série 2137.
Demitido o governo de João Franco, são libertados todos os presos políticos, nomeadamente os republicanos, que juntamente com maçons e grupos progressistas, planearam o golpe. A compra da arma a A. Montez, na altura Gonçalo Heitor Freire (republicano e maçon) foi efectivada pelo 1.º Visconde da Ribeira Brava, Francisco Correia de Herédia de sua graça, que entregou a “canhota” a Manuel Buíça, atirador de primeira água, que ao primeiro disparo, de joelho no chão, acertou no pescoço do monarca partindo-lhe a coluna; deu um segundo disparo que lhe atingiu o coração, para não mais se mexer. Ao lado do pai estava o príncipe Luís Filipe que teve a mesma sorte pela mão do outro atirador, Alfredo Costa.Ele e Buíça seriam abatidos nas imediações do Terreiro do Paço, pelo tenente de seu nome Figueiredo.
Todo o trama fora planeado a meia dúzia de metros da Espingardaria, no Café Gelo, que ainda hoje lá tem um mural testemunhando ali a habitual presença destes republicanos, onde se destaca Aquilino Ribeiro; o outro local de reunião era também ali ao lado, na Rua 1-º de Dezembro, no Restaurante Leão D’Ouro, felizmente ainda existente.
Mas há vários momentos pictóricos vividos nesta Loja com História, assim cognominada pela Câmara Municipal de Lisboa, à semelhança de algumas outras na cidade das Sete Colinas.
Um “nuestro” Hermano, olhando espantado para as fotos antigas ali expostas, disse: - “mira,que tienda más vieja”. Aí fiquei logo a olhá-lo de lado, qualtienda, qual carapuça, isto é uma loja de prestígio e “tiene más que cienaños”! Para dar mais ênfase à coisa contei-lhe, sem pormenores, a história atrás descrita. Olhou-me desconfiado, e lá foi direito à porta de saída, parecendo-me ouvir qualquer coisa entre dentes. Aí ainda lhe disse, “hombrey fuiyo que é vendido la escopeta al visconde”. Ainda hoje ele estará a fazer contas “por los dedos”!
Outro meliante, este vindo de Bencatel, que só dava à costa quando vinha ver o Benfica nas meias-finais da Taça dos Campeões Europeus, vejam lá há quanto tempo foi,apareceu mesmo quando estava a fechar a porta para almoço. Deixei-o entrar e começa a conversa assim: “Eh amigo há anos que não ando por estas bandas, diga lá, ali em frente ainda há aquele “caféi” que lá na cave tinha umas “maganas” que aquilo era de “arrebimba o malho”?Ai é, “e ali na Rua do Coliseu também havia” …
“Olhe, ó amigo, vossemecê não quer armas,néi?Já vi, vem é às putas. Então vá ali para a Rua João das Regras, a seguir à Praça da Figueira, que é só escolher, enquanto eu vou dar ao bigode.”
E um marmanjo em pleno Rossio que ali mesmo arriou as calças, fazendo de mim padrinho do “preso”, comigo ali bem perto!...
Hoje em dia, quando tanto se fala da igualdade de género, está cada vez está mais generalizado ver casalinhos do mesmo sexo a passear de mãos dadas, frente à loja, muitos deles homens de meia-idade e mais além – espero bem que isto não se pegue! – alguns dos quais tudo fazendo para dar no olho, quer dizer, nas vistas.Vai lá vai…
Antes da pandemia entrou porta dentro um “raparigo” brasileiro, qual papoila – atenção que não tem nada a ver com as papoilas saltitantes - colorida, toda doidona e vaporosa, incrédulo a olhar para armas expostas,pergunta:“para que servem tantas armas?”“Olhe meu caro, são para caçar coelhos, perdizes, lebres, caça menor; e estas, são carabinas para abater javalis, “Viados” e tal, caça grossa!”“Ai “credooo”!tanta violência, adeusinho gatão, mas olha rico vou com essa da não sei quê grrrooosssa no pensamento!”“Tchau!”Qual gatão, qual quê, Leão, isso sim, ainda que sem…juba.
Também vindos do Brasil, um jovem casal entra e pergunta: “Siô, onde apanhamos o treim para Sintra?“É aí em frente, nesse edifício de linda traça”. “Não se esqueça de ir à Piriquita”,quiz eu ajudar. Toda a gente conhece, menos o casal que ficou encavacado. Ele ainda respondeu “hoje dá não”, ela saiu logo porta fora. Bem, só depois soube que piriquita é o mesmo nome daquela que me berrou ao ouvido lá na “Badalena”.
Um dos maiores vultos da cultura portuguesa, Fernando Pessoa, cabe aqui com todo o mérito. Sua namorada Ofélia morava mesmo por cima da loja, contudo, nem mesmo a Igreja de S. Domingos, do outro lado, os abençoou para uma união que nunca seria duradoira já que a sua morte aconteceu quando apenas tinha quarenta e sete anos.
Se calhar, por outro lado, ela nunca sabia qual era o dia de quem: Fernando Pessoa/Alberto Caeiro/Álvaro de Campos/Ricardo Reis(!). Também se constava, aliás, que este grande escritor era pouco atiradiço…, mais dado à poesia, à astrologia e a tantas outras coisas.
José Morujo Júlio
21 agosto 2020
Quando “Nosso Senhor”corria pela charneca de…calções
Na senda sacrossanta veio-me à ideia os tempos em que, nas férias, treinava pelas estradas da nossa freguesia. Ainda existiam os postos da GNR e Guarda Fiscal no Bernardino. Descia o Arrabalde e ao passar pelo guarda de serviço era certo e sabido que o camarada na Póvoa recebia a notícia como que se tratasse de mais um contrabandista. Ao desfazer a curva, junto ao campo da bola, frente ao posto, já a assistência dava sinal da minha presença com alguns piropos à mistura: “este podia passar as malas que quisesse que não o agarrávamos”.
Mas foi para os lados da Salavessa que fui alvo da mais inusitada faceta com o seu quê de irreal quando dois seres me confundiram com “Nosso Senhor”, haja Deus! Vindas do eucaliptal, antes azinheiras e sobreiros, e frente ao chafariz agora remodelado, surgem duas velhotas com feixes de lenha à cabeça, ao mesmo tempo que do lado oposto da maltratadaestrada, apareci eu, de cabelo grande e robusta barba, qual “Che” sem boina, mas de calções.
Olharam aturdidas e deu para ouvir: “ãiêMarijaquina, é o “Nosso Senhor”, Jesus nos valha”. Sem saber o que fazer perante tamanha honra, comovente até, apenas acenei ao de leve sem soletrar palavra, não pelo cansaço mas, outrossim, pela luminosidade do que ali se estava a passar!
Passada a fonte, lá fui eu direito ao cemitério, salvo seja, pensando chegar ao Monte, mas logo pensei: “bem se entro no lugarejo, só com uma rua, como é que de lá saio?”, a menos que o Samuel abrisse a tasca e elucidasse o povo dizendo quem era o “intruso”.
Dei a volta antes de virar para o Pé da Serra, e continuei a minha santa correria em direcção a Montalvão. Claro que tive de me cruzar novamente com as generosas senhoras, que voltaram a pousar o carrego e de mãos postas “obrigaram-me” a entrar no seu devoto pensamento; voltei a acenar e disse qualquer coisa como “Abençoadas sejam”, se calhar até doirei a pílula, mas não era minha intenção.
Com a imagem daquelas duas almas no pensamento, depressa cheguei à Rua com o mesmo nome, onde conhecida que é a capelina da minha rua, sempre iluminada, das Almas. Olhei para o Cristo crucificado e orei à minha maneira com pena daqueles dois seres que acabariam por se aperceber que o “milagre” que as havia vislumbrado, depressa se desvaneceu.
Pobres mentes que viram sua crença abalada por culpa de um deus menor!
José Morujo Júlio
25 agosto 2020
…” Ó SÔR AGENTE, POR AQUI VOU BEM PARA O MONTE POMBO?
Foi quase há uma vintena de anos, quinze dos quais em “alta competição”, a dar à perna e para que a forma surgisse na pista tínhamos de devorar quilómetros em estrada, praia e campo, com extensas rampas enlameadas. Neste sentido arrancávamos do Estádio José Alvalade até à Serra de Monsanto, pulmão de Lisboa por excelência, passando pela Segunda Circular onde, em 1976, Carlos Lopes, preparando-se para os Jogos Olímpicos de Montreal, foi atropelado, isto a quinze dias do grande evento, mas mesmo assim conseguiu ser vice-campeão, perdendo apenas para o finlandês Lasse Viren, com quem convivi, vinte e tal anos depois, em sua casa sobranceira a um extenso lago.
Cabe aqui um pouco de história sobre a vitória do “finlandês voador” e seus colegas de fundo e meio-fundo. É que esta famosa equipa preparava-se em altas montanhas de países como o Quénia. Aqui trabalhavam meses a fio e no momento próprio era-lhes retirado parte do seu sangue que, altamente oxigenado, lhes viria a ser administrado ao nível do mar aquando das mais prestigiantes competições. Daí os “finlandeses voadores”, pudera! Era um “doping” encapotado, mas que dada a sua complexidade se tornava difícil confrontar e punir.
Não raras vezes nos percursos de estrada éramos alvo dos mais variados piropos como “vão trabalhar malandros”, como se a seguir ao duche fossemos relaxar. No meu caso saía do Estádio e vinha directo para o Jornal “Diário Popular”, no Bairro Alto, onde, para além deste diário, também se compunha “A Bola”, o “Record” e várias revistas.
Neste trajecto, Saldanha, Marquês, Avenida da Liberdade, aquivirava à Praça da Alegria, e era um salto para o velhinho Bairro Alto.
Descia eu a concorrida Avenida quando, no cruzamento a seguir ao Parque Mayer, dou de caras com um agente policial a comandar o trânsito. Quase encostei o 1602 às calças da autoridade, ao mesmo tempo que lançava a bojarda: “Ó Sôr agente, por aqui vou bem para o Monte Pombo”? Virou-se e com aquela cara que os polícias de antanho “punham” para mostrarem quem eram (!) e, quando se preparava para dar a sua voz de comando, reparou a tempo e “eu logo vi, mas que prenda” e logo rematou: “Por aí vais é direito à Fonte Ferrenha”.
Estou a falar do nosso querido conterrâneo, “Baleiza” (Amândio Mourato) – paz à sua alma - que bastas vezes avistava por ruas e vielas desta velha cidade de Lisboa, que também amo.
José Morujo Júlio
02 setembro2020
“FEITOS” E LARACHAS DE MONTALVANENSES
COITADOS DOS SANTINHOS… Há quase um século, Montalvão tinha um pároco muito querido pelas nossas gentes, chamava-se Agostinho, exímio caçador, por sinal. Um belo dia o velho cura solicita ao João Fartel e seu comparsa Ti Bufa - homem de palavras mansas que despoletava risos a qualquer trombudo – para uma ajuda na mudança de alguns santos. Mal o senhor prior se descuidou na sacristia e já o São Torcato e o São Bento tinham dois cigarros provisórios nos queixos; apercebendo-se de que o cheiro era tudo menos incenso, benzeu-se duas vezes e rogou outras tantas pragas “à seus malandros, isso faz-se?” asseverou o padre com veemência, ao que o Ti Bufa naquele palrar inocente (!) responde: “Ó Senhor Padre, aqui estão estes pobres de Cristo sem irem ao cinema, beber um copo, fumé um ceguerre”…Perdoai-os Senhor que eles não sabem o que fazem. Chiça! não disse, mas pensou, o condescendente prior.
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QUARENTA ESCUDOS SENHOR PADREEE!… Ainda aquele amado padre Agostinho. Um dia, um cigano bate-lhe à porta anunciando: “Senhor padre, olhe o mê filhe morreu, o moço que tinha vinte anos”. Meus sentimentos, confortando o amigo Lelo, agora temos de lhe fazer o funeral, são quarenta escudos. “Quarenta escudos senhor priori aaaiimãee… quarenta escudos nem valia eli vivo quanto mais agora depois de morto; aí lhe fica!”. Adeus que ê tenhe de irip’rafêra de Alpalhã”.
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Ê CHIQUE, LAVA LÁ AÍ OS… Uma família genuína montalvanense foi fazer um piquenique lá para os Olhos de Água, Portagem, onde nasce o nosso Sever. Preparando a salada e num ambiente de festa, a esposa grita ao marido que entretanto estava em amena cavaqueira, se calhar contando pêtas,já que era caçador: “Ó Chique (nome fictício) lava lá aí os tomates” ele resmungandolá foi dizendo em dó menor. “outra vez!”
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Ê MÃE, AQUI É QUE É O… Uma família nossa conterrânea estando a velar o patriarca, no meio de todo aquele ambiente pesado, o filho mais novo, apercebendo-se de tão angustiante verter de lágrimas saiu-se com esta: “Ê mãe aqui é que é o chorá”…
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“SI SI TIENE UNA PATA… No tempo do contrabando, o meio de vida dos nossos patrícios era o contrabando. Numa dessas idas até ao lado de lá, depois de entregue a tripa e o café, dois amigos esconderam-se numa igreja onde se celebrava um baptizado. Um deles, com uma perna quase inerte, apoiava-se num varapau mal enchaputado mais parecendo um fueire. Entraram até meio da capela mas o toque-toque na velha madeira alertou o cura que olhando o nosso conterrâneo: “Non lhe dá a ustedberguênça de entrar em casa del Dios com el palo na mano”? mal ajeitado o nosso amigo apontando para a perna desengonçanda diz: “mira usted”. O pastor,mais compreensivo,hablou: “Bueno, bueno, tienne una pata rota”.
José Morujo Júlio
03 setembro2020
AINDA A RAPOSA…AGORA A CONVIVER COM JAVALIS
A história da raposa – mas que mania de gostar tanto dabichana–percorre toda uma geração, passando de pais para filhos, onde surge a primeira herdeira, uma gaiata que tanto para comer como para dormir tinha porras, no primeiro caso só com o nariz tapado entrava algum alimento e no segundo só pregava olho andando de carro primeiro e contando longas histórias depois.
Quando me tocava a mim lá vinha a raposinha à baila, mas a história de tanto contada já tinha várias versões, como a gaiata – ceguena manhosa – continuava de olho arregalado, eu acabava por adormecer primeiro na altura do e depois…zás, cabeça à banda, e ela com os dedos abria-me os olhos como que à procura deganfanas…e depois…e depois…e depois…!
Onze anos depois veio um loiro rapagão que ao invés da irmã era um autêntico come-e-dorme. Ainda mal andava, lá vinha ele do berço: ó mamã o menino ainda não lanchou, isto pouco tempo depois de terenchido o bucho!Na história, era sempre apanhado na curva, fosse qual fosse a versão. Contava eu, apressando o final, e então o gaiato adormeceu na caminha de palhinha de milho… e saltava ele: ó pai o menino ainda não correu para a choça! O menino tinha ido a passo porque estava cansado por ter andado aos ninhos. Vê lá mas é se dormes que o pai vai ali já vem. Chi carafe que ganda seca!
Toda esta converseta obrigou-me a visitar a “Badalena”. Desci a barreira, com início no local onde outrora se erguera a capela de Nossa Senhora Maria Madalena e à medida que me aproximava da antiga vistosa horta, perdia o alento. Na companhia de minha mulher – onde é que havia aquela imensa figueira estiveira que temos uma foto apanhando apetitosos figos todos raiadinhos – parámos debaixo de um grande chaparro, com o tronco nêigreque nem um tecem, mas que todavia tinha albergado uma família de melros já libertados, era um sinal de vida num ambiente desolador. As vages, uvas e tomates, abrunhos, buchêigues e ameixas davam lugar a um imenso silvado, donde, pasmem, saiu uma vintena de javalis, ainda bácoros, já que os progenitores nem sequer abandonaram a malhada, com a certeza que ninguém os importunaria.
A cabana dos meus sonhos era agora um montão de pedras sem direito a albergue já que o telhado jamais suportará outra doninha. Isto é um pequeno exemplo de um Alentejo cada vez mais esquecido onde o trigo não medra e o mato avança, até as azinheiras e os sobreiros morrem à míngua. Salva-se o gado, porque subsidiado, nos alerta em noites de Verão anunciando que por ali ainda vai havendo vida.
Nestes dias tenho assistido ao “Tour de France” e é com satisfação suprema que posso apreciar uma imensidade de campos lavrados ou semeados, numa simbiose de cores para meu deleite. Ao invés aquele que foi o “Celeiro de Portugal”, é agora um bardo de vacas e ovelhas, um mundo de bosta e caganita. Rais parta!
José Morujo Júlio
04 setembro 2020
QUANDO A TERCEIRA PERNA TOLHE OS MOVIMENTOS
Por muito que alguns queiram denegrira agremiação, o Sporting Clube de Portugal é, hoje por hoje, o maior Clube do Mundo, testemunhado pelo seu ecletismo. Por ali militaram e ainda perduram, mulheres e homens que elevaram ao cume do pódio o nome de Portugal.
O futebol, eivado de vícios é, no entanto, um mal necessário porque arrasta multidões, crentes e até ferozes adeptos, condição sine quanon para que o “negócio” frutifique, contudo, o seu fruto tende a apodrecer, quando a corrupção alastra, e o mata à nascença sem que os verdadeiros culpados sejam condenados.
Naquele tempo – até parece que me refiro ao paleolítico superior – ainda o tão arrepiante palavrão, a corrupção, está bem de ver, entrava tanto em jogo, dias havia que o velhinho Estádio José Alvalade parecia uma autêntica romaria, com o relvado, as pistas de atletismo e de ciclismo pejadas de atletas em animado convívio pujante de força e graciosidade.
É neste salutar ambiente que entra um promissor concorrente querendo trocar o ringue pela pista por se julgar dotado para pequenas distâncias, como são os “sprinters”. Andava ele no aquecimento, esmurrando o vento, para descer ao interior do estádio para dar porrada no saco (quem era o mestre, era Ferraz que ainda me elucidou na Marinha, aquando do Curso de Educação Física, o primeiro da Armada, como era a defesa e o ataque na disciplina “Nobre Arte”).
No colored rapagão até a cor lhe emprestava parecenças com o campeão olímpico dos 200 metros, o jamaicano UsainBolt, o tal que apontava ao céu como que agradecendo aos deuses mais uma vitória quase sempre ornamentada com novo recorde.
A leonina figura que até ali mantinha o sonho de dominar o duplo hectómetro, continuava com o necessário aquecimento para que o teste não lhe trouxesse dissabores com alguma lesão, já que a noite se aproximava e o vento frio não queria faltar. Era fisicamente dotado, corpo que nem o helénico Zeus – deus supremo do Olimpo– desdenharia.
Na Grécia antiga, isto 490 a.C., berço da civilização ocidental, os homens helénicos primavam por exibir os seus esbeltos e musculados corpos nus em jogos e danças. Não esquecer que ali se iniciaram os Jogos Olímpicos.
Ainda nestes tempos surgiu a lenda do soldado grego Fidípidesque na guerra contra os persas correu 42.195 metros da cidade de Maratona a Atenas para pedir reforços pelo caminho. Daí a prova olímpica com o mesmo nome. Voltou com mais de dez mil soldados que venceram a batalha. Contudo, um prepotente comandante – eles ainda andam por aí – ordenou ao esforçado soldado-atleta que voltasse a Atenas correndo (!) para dar a notícia da vitória. Extenuado, ainda assim, deu o recado, mas de pronto sucumbiu por não ter aguentado tal, esforço sobre humano. De certo modo sei avaliar o que custa fazer em competição semelhante, trinta quilómetros, fi-lo apenas uma vez – Campeonato Nacional de Fundo – fui segundo a seguir ao imorredoiro Armando Aldegalega que ainda corre por aí, lá se vai aguentando, cada vez mais pequeno por se ir “gastando”! A parte final, chegada ao Estádio Nacional, as pernas já não queriam as sopas e a cabeça martelava como se bigorna fosse. Valeu pela experiência.
José Morujo Júlio
06 setembro2020
HÁ QUEM GANHE POR UM PEITO ESTE POR UM… PAI DE NÓS TODOS
Nos anos sessenta/setenta, a minha época, havia uma esbelta e atraente velocista, representava um clube da cidade do Rio Azul que exibia as mais bem torneadas curvas em tudo o que eram saliências, exibindo um vistoso peito firme e empinado, capaz de rebentar com os botões de qualquer bem cintado corpete que a ajudava, sobremaneira, a cortar a meta quase sempre “por um peito”, gíria também aplicada aos homens.
Voltemos ao “anjo negro, isto para as mulheres claro” que terminado o aquecimento lá vai para a partida dos 200 metros, metade da pista, distância que aliás fizera parte do treino dos meio-fundistas nessa tarde-noite e onde eu estivera, a percorrê-la dez vezes com intervalo de descanso activo a trote da meta até nova série. Eu próprio fui indicar onde estava o risco e vim andando até junto do professor Raimundo, adjunto de Moniz Pereira.
Aquele técnico grita ao sonhador velocista: “Tira as calças” para que a desenvoltura fosse facilitada, mas ele, “está bem abelha” e volta a bradar “Ó pá tira as calças”, ele à quarta ou quinta vez, fez a vontade ao professor que mal o via lá no escuro. O “boxeur-quase-spinter” lá arrancou cheio de ganas, despachou os primeiros cem metros em curva e surge da penumbra o esbelto rapagão em movimento sobrenatural, deixando a descoberto mais uma perna que o devido, emperrando o andamento devido ao movimento contrário ás outras pernas que felizmente só estas tocavam o chão(!) Era a modesque um badalo alvoroçado batendo descompassadamente em sino de catedral.
Pois meus caros amigos se a atleta atrás citada ganhava sempre “por um peito” este atleta que, naturalmente continuou a ser “boxeur”, ganharia por um…pai de todos nós”. Compreendi-te!…
Talvez não caia mal aqui aquela quadra cantada e recantada por altura das sardinhas assadas e manjericos:
Ó meu rico Santo António/És um grande malandrão/Das três pernas que me deste/Só duas chegam ao chão…
José Morujo Júlio
06 setembro 2020




